Café...tudo de bom!

14.7.12

A CADERNETA DA DONA LOLÓ


Essa história da CPI do Banestado, que se transformou em copiosa fonte de denúncias e de sobressaltos para a nação, me lembrou a história da caderneta da Dona Loló que começara a vida como prostituta, mas com o tempo se transformara numa empresária do sexo e conquistara, além de muito dinheiro e o direito de ser chamada de "Dona", a reprovação das forças conservadoras da cidade, a começar pelo padre Pestana. Ela agenciava garotas de programa, organizava encontros e festinhas "privê", que o padre Pestana pronunciava "privé", e por mais discreta que fosse não aplacava a revolta do padre e das senhoras da Cruzada Moral, sua tropa de apoio. 
  
Era preciso acabar com aquela pouca-vergonha.

Dona Loló tinha que ser banida da cidade. Para isso, era necessário que toda a cidade ficasse sabendo da extensão das suas iniquidades.

Do tamanho da sua afronta à moral das famílias. 

E aconteceu que, um dia, Dona Loló foi fazer compras, se distraiu e esqueceu sua caderneta sobre um balcão.

A caderneta com todos os nomes, não só das suas meninas como dos seus clientes mais frequentes. 

E quem encontrou a caderneta foi Bento Bochecha, justamente o sacristão da igreja, que a levou correndo para o padre Pestana, gritando "Vamo acabá com o privé! Vamo acabá com o privé!" 

E, realmente, ali na caderneta estava tudo que o padre Pestana precisava para mostrar a todos a dimensão da mancha social que Dona Loló representava na cidade. 

Padre Pestana reuniu as senhoras da Cruzada Moral para anunciar que naquele domingo leria, do altar, os nomes de todos os clientes frequentes da Dona Loló. Como, por exemplo... E abriu a caderneta numa folha do meio, onde estavam os nomes não só do juiz de Direito e dos dois principais comerciantes e do delegado da cidade como o do marido da Dona Justina, presidente da Cruzada Moral, e o maior doador da paróquia para as campanhas beneficentes da igreja. 

O padre Pestana fechou a caderneta com um estalo.

Diante das indagações das senhoras da Cruzada Moral, disse que tinha havido um engano e mandou o Bento Bochecha devolver a caderneta à sua dona, com uma recomendação para, no futuro, cuidar melhor dela.

E o Bento Bochecha ainda recebeu um cascudo, para aprender a não ameaçar daquele jeito o sossego, a paz doméstica dos cidadãos de bem e a própria vida econômica da cidade.

Luis Fernando Verissimo

abçs,

Um comentário:

Van-Ivany Fulini Sversuti disse...

kkkkkk...A vida é isso...Não atirar pedras nunca! Imagine, aqueles homens não faziam mal à ninguém, apenas viviam um prazer carnal que era diminuída a culpa diante de tantos benefícios que prestavam à Igreja.
O calo do padre Pestana doeu demais nessa hora...kkkk.

Uma ótima reflexão para um domingo lindo, gelado mesmo com sol.
Beijos.
Ivany