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25.11.12

Animais em cena: O LAGARTINHO


Era na hora do almoço e atearam fogo na chácara vazia em frente à minha casa. Chamamos os bombeiros, mas eles demoraram quase uma hora para chegar. Nós, os moradores bobos, tentando controlar o fogo com mangueira e balde. E eu vi, no asfalto, e se contorcendo: um lagarto marrom e queimado. Todo queimado, se ele tivesse voz ele estaria gritando de dor. E o corpo longo de lagarto se contorcendo no asfalto quente. Veio gente ver, estavam com medo de socorrer ele. Eu peguei ele com as mãos e trouxe para casa. Ele estava quente, o corpo longo dele estava inteiro quente, o lagarto tentava sair das brasas. Pus ele na grama e liguei para a veterinária. Ela disse tudo que tinha que fazer: compressa com solução fisiológica, profenid para a dor, água de coco para hidratar. Só saí de perto dele para comprar os remédios. Meu bichinho era um lagarto filhote, os dentinhos curtos. Quando abri a boquinha dele para dar o remédio saiu sangue e fuligem. E eu deitei do lado dele e dizia: “aguente, força, eu estou cuidando de você”. Ele, de vez, em quando, abria a boca, um reptilzinho na minha cozinha. E todo queimado. A barriga queimada, a cabeça, a cauda, as patas. Ele tinha cheiro de carne queimada e estava vivo, na minha casa, o lagarto filhote. Ele era um filhotinho, pequeno ainda. Era meio dia quando eu peguei ele no asfalto. Os passinhos lentos de lagarto filhote que queriam fugir do fogo enquanto ele era queimado vivo. A dor que ele sentiu quando eu abri a boquinha dele para dar água e remédio para a dor. Eu devia ter dado mais remédio? Dei como a veterinária falou, mas com o corpo tão queimado… E eu vi como é um lagarto, nunca antes na minha vida eu tinha visto assim, um tão de perto. Era o primeiro lagarto da minha vida, que bicho mais lindo, meu Deus, que bicho mais lindo! E eu estava ali para ajudar ele a morrer. Ele estava ali, indefeso, inocente. Que dó, que dó, que dó, que profunda dor no meu peito. Era meio dia quando eu levei ele para casa e às quatro horas ele morreu. A respiração foi ficando fraquinha, fraquinha e ele parou de respirar. Eu peguei ele nas mãos, quis espantar a morte, gritei, mas não teve jeito. A agonia dele durou quatro horas. Ele quietinho todo esse tempo, sentindo as dores lancinantes do corpo queimado até morrer quatro horas depois. Quatro horas de dor e sofrimento. Eu cheguei a acreditar que ele ia viver. O olhinho dele parecia que olhava para mim e o olhinho foi fechando, fechando, e a respiração parou. Dentro de mim, o ódio, a dor. Ódio e dor. Enterrei o corpo do lagarto-menino num terreno verde. O lagartinho que a terra recebeu. Quem ateou o fogo ninguém sabe, ninguém viu. Foi alguém que, à noite, jantou tranquilamente, viu a novela, rezou antes de dormir e acredita que vai para o céu. Eu escrevo para ver se, assim, eu paro de chorar. Para parar de pulsar. Porque ontem foi um dia de muita dor e de muita tristeza. O menino-lagarto que eu cuidei está morto, quantos mais o incêndio matou. Quantos mais o incêndio matou. Agora ele está morto. Morto e dentro de mim. Para sempre dentro de mim. E, antes de dormir, eu pedi para Deus para que a minha alma vá para lá, para onde ninguém mate, para onde não exista mais a dor. E onde eu possa conhecer como é, vivo, o lagartinho que eu ajudei a morrer.

EVELY LIBANORI

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