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7.8.16

José Saramago fala de sua mulher Pilar del Río


O que a Pilar [del Río] é para mim é difícil dizer-te. Secretária não é, ajuda-me no que eu preciso e ela pode, mas isso não a torna minha secretária. Nem eu queria que a minha mulher fosse a minha secretária. Eu diria que vivi tudo o que vivi para poder chegar até ela. A Pilar deu-me aquilo que eu já não esperava vir a ter. Eu conheci-a em 1986 e já vamos a caminho de sete anos de autêntica felicidade. Eu olho para o que vivi antes e vejo tudo isso como se tivesse sido uma longa preparação para chegar a ela. Portanto dizer-teque é a mulher, a amante, a companheira, a amiga, tudo isso são apenas tentativas de dizer o que é e nada mais. A nossa relação é outra coisa, não cabe muito nessas categorias.” (Baptista-Bastos, José Saramago: Aproximação a um retrato, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1996) in Palavras de Saramago, p. 40).

Falar de Pilar [del Río] é ao mesmo tempo fácil e difícil. Ela nasceu em 1950 e eu em 1922. Tenho uma sensação esquisita quando penso que houve um tempo em que eu já estava por aqui e ela não. É estranho para mim entender que foi preciso passar 28 anos desde o meu nascimento para que chegasse a pessoa que seria imprescindível em minha vida… Ela é, os que a conhecem sabem, uma mulher extraordinária, além de muito bonita. Ela nasceu para servir aos outros são todo o mundo, a mãe, os catorze irmãos, as amigas, os amigos… Ela está sempre disponível. Ela nunca diz não a um apelo e dá toda a atenção à pessoa com quem está falando, que nesses momentos é a mais importante do mundo. Bom… Quando a conheci, eu tinha 63 anos, era um homem já velho. Ela tinha 36 anos. Os amigos me diziam: ” Isso é uma loucura,um disparate! Com essa diferença de idade…!” E eu sabia, mas não me incomodava. Agora não posso mais imaginar a minha vida sem ela, não posso conceber nada se Pilar não existisse… Quando ela não está, a casa se apaga. E quando volta, se reativa.” (“En el corazón de Saramago”, Elle, Madri, n. 246, março de 2007 [entrevista a Gema Veiga] op. cit. p. 56]

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