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18.5.13

A Escrivaninha


Há uma grande possibilidade de que aquela velha escrivaninha ainda permaneça ali por muito tempo, com todas as suas gavetas destrancadas, expondo seu conteúdo agora considerado “inútil”, mas que um dia representou um “acervo” de relativo valor, conforme a época e os interesses de cada um de nós, que a ela tinha acesso.

Ali já não existe mais nada que tivesse pertencido a qualquer um dos parentes mais antigos da família. Durante anos, serviu como local onde guardávamos coisas que escrevíamos ou desenhávamos, revistas e livros, cujos textos ou ilustrações não eram “recomendados” para jovens. Jornais e panfletos considerados subversivos em tempos de ditadura, e que ali trancávamos, na única gaveta cuja fechadura ainda se dava ao luxo de funcionar. Por algum descuido ou por imposição de novos valores, ao longo dos anos, estes objetos foram deixando de ter para nós, a mesma importância de outrora. Passaram a ser tratados como meras lembranças dos tempos de estudante e que a qualquer momento poderiam ir para o lixo, junto com outras coisas sem importância que ali eram agora também jogadas, como papéis rabiscados, pedaços de barbante, tocos de lápis, frascos vazios e outras coisas semelhantes.

Mas, dias há em que certo estado de consciência nos leva a uma lucidez insolitamente percebida, onde ficamos expostos a uma retomada de valores, resultante talvez do simples fato de ouvir uma frase, como: “No próximo São João, vai tudo pra fogueira”! Consequentemente, num fim de semana, remexidas foram todas as gavetas, as da memória e as da velha escrivaninha, de onde felizmente foi retirado do lixo o que não era lixo, surpreendendo em cada objeto selecionado: uma velha foto, uma carta, um desenho a lápis, um cartão de Natal, uma edição de jornal histórica, alguns recortes de jornais e revistas com textos interessantes, diversas coisas que havíamos guardado não só pelo seu valor sentimental, mas, também pelo seu conteúdo histórico e cultural. Muitas coisas ainda devem continuar lá. Ainda não foi para o lixo ou para a fogueira, nem mesmo o que é considerado “inútil”. A antiga escrivaninha parece possuir uma força transcendental, como se tivesse vontade própria, tentando vencer a inexorável marcha do tempo.

Sob a ação do tempo, seremos todos um dia como antigas escrivaninhas, com nossas “gavetas” da memória, onde guardamos lembranças. Algumas dessas lembranças, mesmo as que gostaríamos de “jogar no lixo” deverão permanecer, pois, fazem parte da nossa história, repleta de erros ou de acertos, cujos bons ou maus exemplos, servirão como parâmetro para o futuro desempenho das novas gerações, em seu livre arbítrio para decidir o rumo de suas vidas.


*Carlos Éden Meira é jornalista e cartunista – DRT Nº 1161

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