Café...tudo de bom!

24.5.16

Afetuosamente, o papai


De:José Freire Silva
Para:Nelson Freire
Em 1950, o farmacêutico José Freire Silva mudou-se, com a família, da pacata cidade mineira de Boa Esperança para o Rio de Janeiro, então capital da República. A mudança tinha como objetivo dar continuidade aos estudos de piano do filho, então com seis anos. Escrita em páginas do livro de contas da Farmácia Freire Silva, de sua propriedade, o pai de Nelson Freire registrou a decisão nesta carta que seria lida pelo cineasta Eduardo Coutinho no documentário Nelson Freire, de João Moreira Salles. 
Boa Esperança, 21 de julho de 1950

Meu filhinho,

Ao tomar a decisão de transferir-me com toda a nossa família para a capital da República, julguei oportuno registrar no teu álbum de reminiscências alguns fatos que intimamente dizem respeito à tua existência para que sirvam de orientação para tua biografia, isso porque a nossa mudança se faz unicamente por tua causa. Sem nenhum esforço de memória, ainda me recordo perfeitamente de tudo aquilo que se refere a esses primeiros anos da tua existência, quando vieste a este mundo no dia 18 de outubro de 1944, em Boa Esperança, sul de Minas. Eras um menino lindo, robusto e corado. Porém, eras doente. Quanto sofremos, tua mãe e eu, por ver-te definhar, dia a dia, e choramingar vitimado amiúde por alergia rebelde que a tudo resistia. Teu alimento durante o primeiro mês de vida resumiu-se a um pedaço de marmelada diluído em água filtrada. Como não melhoravas, levamos-te a Lavras para consultas médicas. Ao fim de um mês de tratamento intensivo, tua mãe regressou trazendo-te para casa. Quando te vi, filhinho, meu coração doeu como nunca, e meus olhos ficaram marejados de lágrimas, porque não vi meu filho senão uma criança minúscula e raquítica reduzida praticamente a pele e ossos. Vivias todo remendado de esparadrapos, com o corpinho sempre untado de pomadas, com uma carinha magrinha que metia dó. A tua tendência artística, apesar de tudo, se manifestou desde cedo, despontando com os primeiros fulgores da tua inteligência. Quando estavas febril, teu consolo já era o piano. Com poucos meses de idade, já te sentias maravilhado e ficavas quietinho, embora cheio de mazelas, ao ouvir música quando tua irmã Nelma tocava.

Em 8 de dezembro de 1948, empreendemos uma viagem interessantíssima, era a primeira vez que saías de casa para uma viagem distante sem ser por motivo de doença. Tuas irmãs Nelma e Norma estavam estudando no Colégio Sion, de Campanha. Nos amplos salões do colégio naturalmente não faltava aquilo que te fascinaria, o piano. Em dado momento, a irmã superiora reuniu certo grupo de alunas para ouvir-te. Entusiasmada porque recebeste uma ovação efusiva da assistência, ela, em tom verdadeiramente profético, te saudou meigamente, lembrando às alunas ali presentes que procurassem fixar bem na memória aquele instante precioso, porque mais tarde, quando esse pequenino inocente viesse a empolgar o mundo, seria com prazer e com saudade que se recordariam de que o haviam apreciado e aplaudido aos quatro anos de idade.

Vimos logo que não se tratava de fato vulgar, pelo menos em nossa família, porque teus irmãos mais velhos nunca demonstraram tais aptidões. Tua mãe e eu começamos então a notar qualquer coisa de diferente nas tuas execuções. Resolvemos dar-te um professor mais adiantado, e tua mãe, religiosamente, como quem cumpre uma promessa, assumiu consigo mesma o compromisso de levar avante a tua instrução, levando-te semanalmente a Varginha, aonde ias a fim de estudar com o maestro Fernandes. Ao fim de doze lições teu professor aconselhou-nos a rumarmos para o Rio. Não havia mais nada a te ensinar.

Em junho de 1950, portanto, uma indecisão embaraçosa se apoderou de mim e de tua mãe, colocando-nos diante de um dilema de difícil solução. Devemos dar razão ao nosso coração? Permanecer em nossa querida terra? Criando-te como o fizemos com os nossos outros filhos, no ambiente de paz e de concórdia onde se acham localizados os nossos interesses materiais e onde nos prendem os laços mais caros do sentimento familiar? Ou, por outro lado, rumaremos para o Rio, onde o custo da vida é muitíssimo mais dispendioso e o ambiente meio padrasto em infusões afetivas, mas onde as tuas aptidões poderão desenvolver-se ilimitadamente? Depois de muito meditar, resolvemos seguir essa última vereda, entregando nosso futuro a Deus. Cumprindo a nossa obrigação, deslocamo-nos do interior de Minas para a capital da República, com a finalidade primordial de acompanhar-te os passos, porque ainda não prescindias de nossa companhia e de nossa assistência, mas o teu destino, esse nós o colocamos na mão de Deus.

Afetuosamente,

o Papai

"Arquivo pessoal Nelson Freire."

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