Café...tudo de bom!

26.5.16

O menino que colecionava sons

Mamãe, aprendi a ler a clave de sol. Agora quero aprender a de fá. 'Nelson Freire'
Com apenas 5 anos, Nelson Freire maravilhou o interior de Minas ao tocar Schubert, Brahms, Liszt, Wagner, Mozart e Tchaikovsky de memória. BRAVO! seguiu os passos do garoto prodígio até ele se mudar para a Europa, onde despontaria como um dos maiores pianistas do mundo
por Júlia Medeiros

O músico em 1948, aos 4 anos

Mamãe, aprendi a ler a clave de sol. Agora quero aprender a de fá.

– Não se afobe, meu filho, a clave de fá é muito complicada. O dó vira mi, o mi vira sol, o sol vira si... Vai levar tempo.

– Ah, então é assim?

Sentou-se ao piano e, equilibrando-se na ponta do banco para alcançar os pedais, tocou a partitura que lá estava, lendo, à primeira vista, as duas claves. Tinha 4 anos.

Dona Augusta não gostava que as crianças mexessem no piano de casa, mas abriu uma exceção porque a saúde frágil do filho caçula não lhe permitia as brincadeiras de quintal. O mineiro Nelson Freire – ou Nelsinho, para os mais íntimos – nasceu em outubro de 1944, alérgico a quase tudo. Muitas vezes, era alimentado apenas com ovo, ou chocolate, ou uma misturinha de água e goiabada, ou o que o mantivesse vivo. Como seus quatro irmãos mais velhos já moravam fora de casa, o menino logo aprendeu a amar a solidão e o piano. Hoje, figura entre os principais instrumentistas do mundo. Intérprete exímio de Chopin, lançou recentemente o disco ­Brasileiro – Villa-Lobos Friends, em que se debruça apenas sobre autores nacionais, a exemplo de Camargo Guarnieri, Claudio Santoro, Francisco Mignone e, óbvio, Heitor Villa-Lobos, compositor muito presente em sua infância.

Foi com a irmã Nelma que começou a tocar. Numa parceria improvável – ela tinha 16 anos, e ele, 2 –, a adolescente dava os acordes para que os dedos do garoto despertassem as notas. Pouco tempo depois, a dupla já executava, a quatro mãos, músicas que Nelsinho mal conseguia pronunciar, como o tango La Cumparsita, chamado, em bom meninês, de “lapacita”. A afinidade musical fez de Nelma a musa do pianista precoce: “Ele ficava embevecido comigo tocando. Eu era a mais querida, a mais linda. Ele detestava beijo, mas, se era meu, ele deixava. Tudo por causa do piano, né?” Sempre que saía do internato onde estudava e retornava à casa da família, a jovem se surpreendia com os progressos do irmão. “Brincávamos de fazê-lo acertar o nome das músicas, olhando apenas o desenho das notas.” Como o menino nunca errava, Nelma suspeitou que associasse as composições à capa das partituras. Então escolheu uma peça clássica de cinco páginas, deixou somente algumas notas à mostra e se arrepiou ao vê-lo acertar.

À época, todos na pequena Boa Esperança comentavam o dom do garoto. O pai, José Freire, costumava levá-lo à barbearia para que os fregueses o desafiassem a dizer qual a canção que tocava no alto-falante do cinema. Nelsinho, claro, não decepcionava. Muito querido, seu José chegou a ser prefeito do município no sul de Minas, atualmente com cerca de 45 mil habitantes, onde mantinha, na praça principal, a Farmácia Freire. Sabendo-se pais de um fenômeno, ele e a mulher resolveram levar o filho para Varginha, cidade-polo da região, a fim de que aprendesse música com certo professor Fernandez. Uma de suas alunas, Marília Neves, hoje com 80 anos, tinha 17 quando o pirralho se pôs a seu lado afirmando conhecer de cor a partitura que ela estudava.

– Pois prove!

Era de Chopin a valsa que Nelsinho tocou.

Depois de exatamente 12 aulas, o professor convocou seu José e dona Augusta para lhes avisar que não tinha mais o que ensinar ao garoto. Sugeriu que a família trocasse Minas pelo Rio de Janeiro, onde poderia investir no aprimoramento dele. Foi assim que, aos 5 anos, o menino protagonizou sua primeira turnê. Percorreu o interior mineiro para se despedir. No programa, Brahms, Schubert, Liszt, Wagner, Mozart e Tchaikovsky, além de alguns tangos e boleros que absorvera de ouvido enquanto admirava Nelma. Tímido, executava o repertório inteiro de cabeça. “Àquela altura, já guardava na memória cerca de 50 composições”, calcula o pianista. Diferentemente do que costuma ocorrer aos meninos prodígios, seus pais jamais quiseram enriquecer à custa do caçula e fizeram questão de que as apresentações fossem beneficentes.

Chute na canela

A Farmácia Freire, os primos, o riachinho que agora é uma represa, a jabuticabeira da tia Marinha, o pão com molho da tia Marília e a horta no quintal tentaram caber num apartamento de fundos, na rua Marquês de Abrantes, em Botafogo. Não couberam. A chegada de Nelsinho ao Rio foi mais triste que a sonata mais triste de Beethoven. Na cidade, o garoto pulou de professor em professor até chutar a canela de um tal Fontainha. “Ele tinha a mania de puxar minha orelha. Ficava bem vermelha”, recorda. “Minha mãe já havia pedido que não puxasse mais, e ele fez de novo. Aí…”

Sem esperança de encontrar um mestre que agradasse o filho, já exausto de tanto lhe dizerem como fazer algo que acreditava dominar, seu José pensou em voltar para Minas. Mas dona Augusta, escorada na intuição materna e no gosto por cidades grandes, resolveu fazer uma última tentativa e procurou Lúcia Branco, professora disputadíssima pelos pianistas do Rio. Ela, que tivera Tom Jobim como aluno, concordou em receber Nelsinho para uma audição. Tão logo terminou de tocar, o menino de 7 anos se escondeu atrás do piano. “Trata-se mesmo de um talento especial”, avaliou Lúcia. No entanto, lapidá-lo daria muito trabalho, e a professora não dispunha de tempo nem de ânimo. Nelson ouviu, então, pela segunda vez, o nome do qual se lembraria quase diariamente a partir daí: Nise Obino.

Quando chegaram ao Rio, em 1950, os Freire foram convidados para o aniversário de um parente que, por coincidência, se casara com uma prima de Nise. A festa ocorreu num edifício da rua Tonelero, em Copacabana. “Nise, que era desquitada, apareceu fumando, com duas filhas pequenas, e causou uma impressão incrível. Ela perguntou a meus pais o que pretendiam fazer comigo. Mal soube que planejavam me encaminhar ao professor Fontainha, deu um soco na mesa: ‘Isso é caso de polícia! Estudei com o homem e não deu certo!’”

Na opinião de Lúcia Branco, ninguém melhor do que Nise para encarar o desafio de domar um gênio. A primeira aula se deu em abril de 1952, no número 316 da rua Redentor, novo lar dos Freire, a três quadras do mar de Ipanema. “Foi amor imediato”, relembra o pianista. “Depois da aula, Nise aceitou o convite para almoçar. Estavam em casa todos os meus irmãos e até vovó Marica, que saíra de Minas e viera nos ver. Nise ficou falando de coisas extravagantes, de política... Não havia assunto que a intimidasse. Brincava: ‘Agora, Nelson, vamos conversar de homem para homem’.”

Certa vez, o garoto caiu de cama, com 40 graus de febre. Dona Augusta, preocupada, pediu que Nise o visitasse na esperança de que, diante da idolatrada professora, o menino se animasse. “Ela me olhou profundamente, colocou as mãos em minha testa, sussurrou ‘meu filho’, e a febre cessou como por milagre. Existia uma coisa muito séria, muito bonita entre nós. Uma cumplicidade.” A própria Nise gostava de dizer: ‘O meu amor pelo Nelson é algo que não tem nome. Não é de mãe, de nada, é outro amor’.”

Foi desse modo que o menino frágil perdeu finalmente a “alergia à vida” (além de tudo, era asmático) e se rendeu ao Rio de Janeiro. À exceção das duas horas diárias de estudo de piano, ele fazia tudo que um garoto costumava fazer: ia à praia e ao cinema, colecionava sabonetes e caixas de fósforos, frequentava a escola pública, onde se tornou excelente aluno, e brincava na casa de colegas. Só não podia jogar futebol, subir em árvore e manipular facas ou outros objetos cortantes. Era a maneira de seu José proteger as mãos preciosas do filho.

Em família, os irmãos desafiavam o caçula a compor ao vivo. “Dizíamos: ‘Nelsinho, invente uma música’. E ele inventava a mais bela música clássica. Não era popular, não. Era clássica! Daí a pouco, pedíamos outra, e ele criava algo completamente diferente. Pena não termos gravador na ocasião”, lamenta Nelma. Com 9 anos, o pianista recebeu um telefonema de Boa Esperança: “Você ganhou um presente, mas não podemos levá-lo para o Rio”. Até hoje o presente está lá, no centro da cidadezinha mineira, ligando suas duas avenidas principais: a rua Nelson Freire. Se o moleque ficou eufórico e saiu contando a novidade para todos do colégio? Não. “Eu só queria ser como os outros.”

“Deus te proteja”

Ricardo Fiúza, casado com Janice, uma prima muito querida do músico, ainda guarda a carta que Nelson lhe enviou um dia depois de seu primeiro concerto no Municipal do Rio, em agosto de 1956. “Foi um sucesso. O teatro estava cheíssimo”, escreveu. Colega de classe do instrumentista, Renato Neves quase perdeu a apresentação. “Não queriam me deixar entrar porque eu usava calças curtas. Furioso, retruquei: ‘Meu amigo também usa e não só entrou como vai tocar!’.” Os dois tinham 11 anos.

Nessa época, Nise já havia deixado o aluno “pronto” para estudar com Lúcia Branco. Ele, porém, decidiu ficar com as duas professoras – sem contar Ecléia Ribeiro, que lhe ensinava percepção musical. “Nelson sempre demonstrava genialidade. Tinha ouvido absoluto. No entanto, como estava na muda de voz, não era muito bom em solfejo. Desafinava...”, confidencia Ecléia, que desde então cultiva o hábito de lhe desejar ao pé do ouvido: “Deus te proteja”.

Em 1957, Nelsinho causou grande frisson no Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro e chamou a atenção do presidente Juscelino Kubitschek, que lhe prometeu uma bolsa de estudos na Europa. Dois anos depois, o garoto partiria para Viena, onde iria estudar com o célebre professor austríaco Bruno Seidlhofer. Tão logo desembarcou no país, sozinho e sem dinheiro, entrou numa confeitaria modesta, pediu um pedaço de bolo e comemorou, aos prantos, seu 15º aniversário. Nos 26 meses que se seguiram, não trocou nenhum telefonema com a família, esperou ansioso pelos envelopes de borda verde e amarela, foi expulso de diversos apartamentos e restaurantes por farrear demais com os colegas estrangeiros e conheceu a pianista argentina Martha Argerich, sua melhor amiga até hoje. O prodígio estava deixando de ser um menino.

*Júlia Medeiros*

Júlia Medeiros é atriz, integrante do grupo mineiro ­Ponto de Partida.

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