Café...tudo de bom!

17.9.13

Seminário de Sentimentos

Um certo Rei preocupado com a população do seu Reino, por estar se comportando de maneira grosseira e brutal,convocou o seu conselheiro a fim de trocarem ideias e encontrarem uma solução para aquilo que  ele estava chamando de grande malefício. 
Apresentou-se o conselheiro na hora marcada, dirigindo-se na companhia da Sua Majestade à Grande Biblioteca Imperial onde sentaram-se confortavelmente próximos à uma mesa repleta de licores e iguarias.

Muito tempo depois de bebericarem vinhos e finos licores e degustarem deliciosas tortilhas, chegaram à  conclusão que deveriam realizar um Seminário de Sentimentos onde seriam convocados todos  os que se manifestavam através da alma humana.

Desde a Ira até o Amor,nenhum deixou de ser convidado.

Data marcada,convites entregues à população,tudo acertado,descansou o Rei com a certeza de que,daquele seminário sairia a solução para o que ele estava considerando um grave problema.

Anfiteatro do palácio cheio de convidados, sentimentos reunidos numa ala à parte, o Rei deu início ao Seminário, passando a palavra inicialmente ao Ódio que aproveitou-se daquela liberdade para instigar os convidados contra as determinações da Realeza, pintando quadros dantescos contra a pessoa da Sua Majestade. Espumando e trincando os dentes o Ódio encerrou as suas palavras sob aplausos e ovações da minoria enquanto Sua Majestade olhava-o de soslaio com ares de reprovação.

Em seguida a Inveja se derreteu em amabilidades com o Rei não conseguindo disfarçar o seu pejo pela Majestade e,nas entrelinhas da sua fala percebia-se o quanto alimentava a vontade de estar ocupando o trono Real. 
A preguiça levantou-se para falar,bocejando diante de todos,cochilando e esquecendo-se do que ela mesma pretendia expor.Assim, todos vaiaram-na fazendo com que se retirasse da tribuna muito envergonhada.

O Medo sequer aproximou-se da tribuna pois fora acometido de um ataque de horror quando se viu diante de tantas pessoas imaginou que seria banido do Reino ficando assim sem ter a quem se insinuar.

Sentimento após sentimento expunha o pensamento encerrando com sugestões, muitas vezes absurdas, para corrigir o comportamento da população que estava desagradando ao Rei. Quando todos terminaram de expor o que pretendiam e o Rei dirigia-se à tribuna a fim de dar por encerrado o Seminário,sentiu um leve toque no seu braço como se uma suave brisa o estivesse acariciando.I intrigado,vira-se abruptamente defrontando-se com uma figura feminina de altura mediana, porte altivo, tez clara, longos cabelos que caíam em cascata negra sobre os seus ombros cobertos por um manto azul,níveas mãos sobressaindo das longas mangas do manto, olhos violetas lembrando uma pintura ,cílios longos que traziam ao olhar a serenidade e o enigma da beleza a ser decifrado, lábios delicados de um rosa suave qual pétala da flor que lhe emprestava cor e olor.

Descalça, ela deslizava suavemente na sua direção olhando-o dentro dos olhos onde depositava irresistível magnetismo ao qual o Rei sucumbia.

- Quem és tu que me abordas desta maneira esquece-te que sou a Majestade o Rei ?!

- Perdoa-me Majestade! fala-lhe a emitir melodias celestiais aos ouvidos reais.- Quero apenas ajudar.

 - De que maneira pretendes fazer isto, tocando-me?!

- Não majestade! Não vos tocando e sim vos sugerindo como tocar...

Embriagado com a beleza, palavras e atitudes daquela figura feminina o Rei determina que ela seja levada a um dos melhores quartos de hóspedes do palácio e ali o esperasse para que pudessem dar continuidade à conversa.

E assim aconteceu. 

Desfrutando da intimidade daquele ser angelical o Rei transformou-se instantâneamente numa criatura mais tranquila e menos exigente, compreendendo que haveria de ter uma maneira para que as pessoas mudassem as sua atitudes mas que não seria através de decretos. 

Ele então se apercebeu!

Compreendeu que o convívio com aquela criatura, por poucas horas apenas o havia tocado e modificado tão profundamente, talvez isto pudesse acontecer com as pessoas se estas convivessem com ela. E foi assim que a Ternura captando o seu pensamento, antecipou-se à sua sugestão apresentando-lhe como sendo sua. Agindo assim ela pretendia desarmar o Rei do seu orgulho ,da sua vaidade e da sua maneira de pensar de que tudo só funcionaria bem quando as ideias partissem dele através de ordens e decretos.

Bravo! disse o Rei aplaudindo, ao ouvir a sua sugestão sendo proferida pela Ternura. 

- Além de tudo, consegues ler os pensamentos, és perfeita!

Sem proferir resposta a Ternura despediu-se do Rei depositando um ósculo perfumado no dorso da sua  mão que lhe foi estendida  e saiu do palácio a fim de cumprir a sua peregrinação.

Proclamam que o Rei guardou aquele beijo num suntuoso relicário deixando por escrito que desejava que ele o acompanhasse dentro do seu caixão quando ele morresse. Quanto a Ternura, esta conseguiu modificar o comportamento de toda a população apenas com o seu exemplo.

soninha
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